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Tomando
um trago já no ventre materno
Maria-E. Lange-Ernst
Ninguém é capaz de
dizer exatamente quantos
nenês nascem
com o sinal de droga
no rosto: lábio superior reto
e extremamente fino, nariz largo,
olhos pequenos
e reduzidos
por dobras no lado interno da pálpebra.
O que pesa muito
mais é o
retardo mental vitalício da criança que — como
embrião indefeso —
foi condenada a compartilhar a bebida.
Na Alemanha, cerca de 3 recém-nascidos
em 1.000 vêm ao mundo com essa doença incurável,
a síndrome do alcoolismo fetal. Hoje, 30 mil jovens são
incapazes de levar uma vida normal. Perderam essa chance no ventre
materno. Isso soa extremamente duro, mas todo esforço em
atenuar o fato está errado em vista desse sofrimento evitável.
Há milênios sabemos que o álcool pode ter
conseqüências perigosas durante a gravidez. Na Bíblia,
no Velho Testamento, um anjo adverte a mãe de Sansão
a não tomar vinho durante a gravidez. Há 200 anos,
uma comissão britânica tachou os recém-nascidos
de mães alcoólatras de "famintos, atrofiados
e defeituosos". Há duas décadas, médicos
franceses e americanos documentaram e divulgaram as conseqüências
do abuso de &
aacute;lcool durante a gravidez. Na mesma época, os pediatras
Hermann Löser e Frank Majewski observaram um "faro" específico
nas mães de bebês prejudicados. Fazendo perguntas
sobre problemas com álcool, obtiveram a confirmação.
Desde então, prestaram atenção à manifestação
de problemas causados pelo álcool quando examinavam seus
pequenos pacientes.
Além da má-formação dos olhos, dos
rins, do esqueleto e dos genitais, constataram defeitos cardíacos
em 30 de cada 100 crianças com a síndrome do alcoolismo
fetal. Hermann Löser observou 200 dessas crianças nos
anos seguintes e acompanhou seu desenvolvimento até a idade
adulta. Há vários anos ele ajuda a "Iniciativa
de pais de crianças prejudicadas pelo álcool" como
conselheiro médico e engajou-se na pesquisa e divulgação: "Não
estamos saindo do lugar", diz o pediatra. "Desde
que conhecemos a doença, não foi possível
diminuir o número de recém-nascidos atingidos".
Os motivos disso são:
Poucos médicos decidem conversar com
suas clientes sobre o hábito de beber.
Muitas mulheres não sabem, ou reprimem
o conhecimento, que as crianças, vítimas do álcool,
são prejudicadas pela vida toda.
Nas garrafas e latas de bebidas alcoólicas
faltam advertências, que são obrigatórias,
por exemplo, nos Estados Unidos.
- São raros os locais adequados para o
tratamento de gestantes dependentes do álcool. Quando
existe, o tratamento ocorre, muitas vezes, somente depois do
parto.
Não é raro a mulher dependente
de álcool deixar temporariamente de menstruar. Ela só percebe
que está grávida quando sente os movimentos da
criança.
Nesse momento, as malformações
orgânicas e os danos cerebrais já ocorreram.
O recém-nascido, que precisa "beber
junto" no ventre materno, muitas vezes nasce prematuro, com
peso bem abaixo do normal. Tem dificuldade em respirar espontaneamente.
Muitos morrem nos primeiros dias após o parto, como o bebê da
clínica de Essen que chegou ao mundo com uma taxa de 1,3
ppm no sangue. A extensão do dano causado pelo álcool
está estreitamente relacionada com a duração
e quantidade da ingestão de álcool — e, sobretudo,
com a capacidade do organismo feminino de digerir o álcool.
Isso quer dizer que: o tempo e a regularidade de ingestão
de álcool aumentam
os danos provocados no fígado. Ele demora cada vez mais
para digerir o álcool. Como o álcool passa rapidamente
para o sangue, o drinque da mãe já atua sobre o bebê após
10 minutos, com o mesmo valor em ppm. Mesmo pequenas quantidades
de álcool prejudicam o embrião.
Por esse motivo, os filhos de mães que bebem moderadamente
sofrem de problemas de concentração e dificuldades
comportamentais. O fígado imaturo do feto produz menos enzimas
que decompõem o álcool do que o fígado da
mulher adulta. Durante a ingestão regular de álcool
pela mãe, o órgão ainda imperfeito do feto é completamente
sobrecarregado e o efeito devastador do veneno é mais prolongado,
continuando ainda quando a gestante voltou a estar sóbria.
O abuso de álcool não prejudica apenas o fígado;
as conseqüências desse abuso se alastram até o
cérebro. Em geral, esse fato não é levado
em consideração durante o consumo regular de álcool!
Sob a influência do álcool, o desenvolvimento do
cérebro em formação fica prejudicado. As circunvoluções
cerebrais são menos pronunciadas e numerosas células
nervosas ficam atrofiadas. Conseqüentemente, essas células
dispõem de uma quantidade menor de sinapses — as conexões
tão importantes para a transmissão de impulsos. Uma
rede incompleta de neurônios conduz a informações
errôneas e reações estranhas. Mais estranhos
são os problemas na alimentação, que só são
superados através de refeições mínimas
durante meses e anos — em casos graves, somente por meio
de uma sonda nasal. Crianças com síndrome do alcoolismo
fetal recusam o alimento porque lhes falta a vontade normal de
comer. Muitas vezes, comer e beber lhes causa medo e mal-estar.
Se u tecido adiposo não é bem desenvolvido e, apesar
de muitos cuidados e carinho, baixo peso e altura são a
regra. Nervosismo inexplicado frente a determinados ruídos,
irritabilidade excessiva e receio de qualquer contato físico,
hiperatividade, sensação de náusea frente
a cheiros comuns, bem como dificuldades na fala são problemas
freqüentes. Muitas crianças com síndrome do
alcoolismo fetal vivem em creches ou com pais adotivos, porque
os pais verdadeiros não cuidam (ou não podem cuidar)
delas. Muitas vezes, as pessoas que cuidam dessas crianças
não sabem nada da doença, que só é diagnosticada
a tempo em um quarto dos recém-nascidos. Quando ficam sabendo
dos problemas, caem das nuvens.
Além dos receios por causa do comportamento estranho, as
perspectivas futuras da criança prejudicada pelo álcool
são mais do que graves: apenas cerca de 17% conseguem acompanhar
o currículo normal. A metade tem que freqüentar uma
escola para crianças com dificuldades de aprendizagem. 1/5
vão a uma escola para deficientes. Uma em cada oito crianças
com síndrome do alcoolismo fetal não pode freqüentar
uma escola.
Na maioria das crianças com síndrome do alcoolismo
fetal, as deformações faciais desaparecem quando
ficam mais velhas. Também a hiperatividade muitas vezes
diminui. Mas a deficiência mental as acompanha pela vida
toda. Conseguir ser independente, aprender uma profissão
ou achar um parceiro é menos uma questão de cuidados
intensivos — depende da gravidade do dano alcoólico
que sofreram inocentemente.
Gestação e álcool são incompatíveis — não
há meio termo. Não existe uma "dose limite" no
consumo de álcool. A mulher que deseja ter um filho deve
se abster do álcool já antes e durante a concepção.
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Fonte: Vita Sana Magazin, nº 5 de 1991
Veja
o Site da Sociedade Beneficente Israelita
Brasileira
do Hospital
Albert Einstein
http://www.einstein.br/alcooledrogas
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